Marrocos 1 – O dia em que fui parar em Ksar el Kebir

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Acompanhem a viagem pelo mapa!

Em julho de 2005 fiz duas coisas que todo mundo aconselha a não fazer: ir para o Marrocos sozinha e, pior, ir no auge do verão!

Mas era a única época que eu tinha livre, e estava ali pertinho, em Barcelona. Ignorei todos os conselhos e fui.

Esta semana, arrumando gavetas, encontrei meu diário de viagem e me dei conta que nunca tinha compartilhado estas informações. Resolvi contá-las agora no blog, como forma de viajar de novo um pouquinho.

É claro que de lá para cá muita coisa mudou. Mas outras estão iguais. Então aqui vai o meu relato, que pode servir para outras desobedientes…

Foram 20 dias, passando por Fez, Marrakech, Ourzazate, Merzouga, Dades Valley, acampamento no deserto do Saara, Marrakech outra vez, Essaouira e Chefchouen. Sem nada agendado, nenhum hotel reservado, só deixando a vida me levar.

Capital: Rabad

População: 32 milhões

Nome oficial: Reino do Marrocos (é uma monarquia parlamentarista)

População: 70% árabes marroquinos e 30% berberes

Idioma: árabe (oficial), berbere, francês e espanhol.

Religião: 98% – Islamismo 

 

 

Primeira parada. 

Dia 27 de julho tomei um avião Barcelona-Malaga e de lá um ônibus para Algeciras. De Algeciras cruzei para Tanger de ferry pela Transmediterranea. O relógio da estação marcava 37 graus e os banheiros já eram somente um buraco no chão.

Me deu medinho! Por sorte, encontrei três brasileiros de cara, no barco, o que me deu um certo conforto para seguir em frente. 

Minha ideia era ir diretamente a Marrakech, em trem. Praticamente nem fiquei em Tanger, no mesmo dia segui viagem.

Primeiro problema: meu trem fazia uma conexão em Asilah, logo em seguida de Tanger. Só que isso eu não tinha entendido. Passei direto e fui dar no fim da linha, de noite, numa cidade de 100 mil habitantes chamada Ksar el Kebir, nada turística e da qual eu nunca tinha ouvido falar. Nem aparece no mapa, mas fica entre Tanger e Fez. 

Como tinha ficado o dia inteiro viajando e fazia muito calor, estava super estressada e sensível. Para não em dizer em pânico!

Quando me dei conta da situação, acho que fiz cara de choro, porque então as pessoas que estava dividindo o vagão comigo – um casal e duas meninas adolescentes – começaram a falar todos ao mesmo tempo. Eram uma família e tinham decido naquele momento que iriam me levar para a casa deles! Quem me explicou isso foi a filha mais velha, Fatima Zohra, a única que falava inglês. Eu aceitei na hora.

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Minha família marroquina. Lost in translation.

Eu tava mega cansada e só queria uma cama. Mas convenhamos que uma brasileira na casa era novidade.

Então depois que nós chegamos elas foram cozinhar uma espécie de almôndegas que comemos com as mãos, sem talheres.

Depois, me “vestiram” de marroquina e tive que sair a passear de “braços dados” pela Medina da cidade, onde fui apresentada a muita gente. Uma atração!

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Vejam minha cara de “felicidade” depois de um dia de viagem em terra estranha

Parêntesis: Medina em árabe significa cidade e normalmente a palavra é usada para designar a parte mais antiga do lugar, que quase sempre fica dentro de uma muralha.Do lado de fora da fortificação fica a parte nova.

O emaranhado de ruas, ruelas e becos da parte interna fazem das medinas grandes labirintos. Um pequeno passeio pode ser uma enorme dor-de-cabeça. Mas há uma certa lógica, que a gente vem a entender beeeem mais tarde.

No centro, por exemplo, sempre tem uma grande mesquita. Há também uma separação de espaços por tipo de comercio, hierarquia social, etnia ou religião. Fecha parêntesis. 

Depois de várias peripécias, uma cama. Pelas dúvidas, dormi com meu passaporte e dinheiro na bolsinha, na cintura.

No dia seguinte da minha chegada à Ksar el Kebir , as meninas me levaram à estação de trem, compraram o bilhete e só foram embora depois que eu saí. Agradecida. 

 

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Foto Gisele Teixeira

Como já tava com o roteiro meio atravessado, mudei de planos e fui para Fez – terceira maior cidade do Marrocos e uma das quatro cidades “imperiais”, ao lado de Marrakech, Mequinez e Rabat.

É considerada o centro religioso e cultural do país e tem a mais bem conservada cidade medieval ÁRABE e a primeira universidade do mundo, a famosa Karaouiyne. Também é conhecida por suas Madrazas, escolas onde se ensina o Corão. 

Foi em Fez onde senti mais dificuldade por estar sozinha. É a mais conservadora das cidades marroquinas. Os nomes das ruas estão somente em árabe (o que obviamente dificulta a nossa vida), os cafés são somente para homens e as mulheres praticamente ignoradas. 

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Medina de Fez – Foto divulgação Governo do Marrocos

E em Fez, novo equívoco de minha parte. Fui para a medina sozinha.

Bom, só que enquanto a medina de Ksar el Kebir era uma “medininha”, a de Fez tem 24 portões de entrada, mais de 300 mesquitas, 4.944 ruas e um trânsito de 600 mil pessoas. Dizem que são necessários quatro dias para percorrê-la inteira. É considerada Patrimônio Mundial pela Unesco. 

Tive que pagar um menino para me tirar de lá depois de andar o dia inteiro! E confesso que ainda estava muito assustada para curtir. Quase não tenho fotos de Fez. 

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Uma das ruelas da Medina

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Blue Gate

 

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Uma das coisas mais impressionantes nesta cidade são os curtumes, famosos em todo o Marrocos.

Showara, é o mais importante. Trata-se de um vasto espaço onde foram escavados muitos tanques redondos, um próximo ao outro como se fosse uma superfície de uma colméia.

O curtume é dividido em duas áreas:a de tanques de amônia branco e cal, usado para o primeiro tratamento de peles em estado bruto e os tanques coloridos que são usados para pintar a pele, que ficam de molho por quatro dias. Os operários trabalham com os pés e pernas imersos nos tanques. Tudo muito insalubre. Mas ainda assim visualmente lindo. 

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Foto Gisele Teixeira

Enquanto as outras cores são feitas diretamente nos tanques coloridos, o amarelo é feito artesanalmente.Para tingir o couro na cor amarela, eles usam o açafrão, que tem um custo muito elevado.  Então eles fazem a tinta em pequenos baldes, esses que a gente usa pra lavar roupas, e com as mãos tingem pedacinho por pedacinho.

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Foto Gisele Teixeira

 

Depois de visitar Fez, comprei passagem para Marrakech, o próximo capítulo. 

7 Comments

  • Eduardo Baró disse:

    Te reconozco perfectamente, perdiéndote por el mundo, pero es así que se ganan las mejores experiencias (y sin un santo protector, también las peores)

  • Lucio disse:

    Olá, Gisele! Ksar el Kebir (Alcácer-Quibir) é onde desapareceu/morreu o Rei de Portugal Dom Sebastião, em 1578, seu corpo não foi encontrado… Tinha apenas 24 anos e não tinha filhos, sucedeu-lo seu tio, um cardeal de 70 anos, que morreu 2 anos depois… e aí quem assumiu o trono foi D Felipi II de Espanha.
    Fato que gerou o mito do Sebastianismo, onde o jovem Rei D. Sebastião descansou e voltará para restituir a glória do imperio Lusitano…. (meio como o Rei Artur…).
    O Sebastianismo durou até o século XX, sendo invocado por Antônio Conselheiro em Canudos e interpretado de forma mística por Fernando Pessoa em “Mensagem”….
    Que legal!!! Pisou onde foi feita história….

    • Gisele Teixeira disse:

      Oi Lucio, obrigado pela tua contribuição! Eu não sabia nada disso. Que coisa hein…eu eu lá!!! Vou voltar a ler Mensagem! Um beijo

  • Marilia disse:

    Gisela, seu blog caiu do céu. Vou ao Marrocos com uma amiga em abril. Estamos perdidas, procurando um pacote legal de 10 dias mais ou menos por medo de irmos sozinhas por conta propria, que eu gosto mais. Partiremos de Malaga, mas o que seria otimo mesmo era encontrar uma compania como você. Um gde abraço. Marilia

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