Eu indo ao pampa, o pampa indo em mim

O ano de 2015 começou como eu queria. Devagar. No Pampa.

Com tempo para abraçar a família, tomar mates em silêncio, ver o pôr-do-sol, chorar por gente que teima em ir antes do combinado, pensar.

Slow-life.

Abaixo, fotos sem filtro, sem photoshop, legendadas com trechos de Indo ao Pampa, de Vitor Ramil.

 

pampa 2 - Foto Gisele Teixeira

E me espalho sob o céu Que estende tanta luz No campo verde a meus pés

pampa - Foto Gisele Teixeira

Com a missão de olhar pra tudo E em tudo viajar Pra não ser só um cego Num espaço sem ar

 

Sou o futuro imperfeito De um passado sem lugar

Sou o futuro imperfeito
De um passado sem lugar

 

E lá vamos nós Seguindo a frente fria Pampa a dentro e através

E lá vamos nós
Seguindo a frente fria
Pampa a dentro e através

 

Meus últimos dias estão condensados nas dicas abaixo:

1. Documentário A Linha Fria do Horizonte.

Esse documentário faz uma viagem pela região do Rio da Prata que se estende por três países: Brasil, Argentina e Uruguai. Fundamental para entender as raízes. Para mim, fundamental para entender porque desarmei as malas aqui em Buenos Aires. Tô no centro e não na beirada.

Dá para comprar online, por Facebook. 

Com uma fotografia de emocionar, mostra a relação entre a paisagem, o clima e a obra de diversos cancionistas oriundos desses locais, que ignoram fronteiras e ampliam a discussão a respeito da criação sonora.

Três vertentes formam o eixo principal desse vídeo: a “estética do frio”, do Sul do Brasil; o “templadismo” uruguaio e o “subtropicalismo” argentino. Vitor Ramil, Daniel e Jorge Drexler e Kevin Johansen são alguns dos escolhidos para revelar, cada um à sua maneira, a influência das baixas temperaturas na frutífera produção musical proveniente desses lugares.

 

2. Blog Pampurbana

Este espaço, tocado pelo João Vicente Ribas, traz muito do que tá acontecendo musicalmente no eixo Brasil, Argentina e Uruguai.

E tudo não haveria nem começado se antes não houvesse uma história em comum, de disputas de fronteiras entre portugueses, índios e espanhóis. Não houvesse tango por todo o Prata. Também não chegaríamos ao amadurecimento artístico no patamar atual se antes não tivessem interações como a entre Raul Ellwanger e Mercedes Sosa; se até aqui outros compositores nunca tivessem cruzado a fronteira política e assumido uma identidade comum aos vizinhos.

Indico começar por 10 canções que você precisa conhecer em 2015.  

 

Abaixo, uma dica de trilha sonora. Tô apaixonada por esta milonguita! Voz e violão de Zelito, letra de Pirisca Greco/Pablo Grinjot/Zelito

 

3. O Tempo e o Vento

pampa

Onde todas as histórias, senão na família?

Com tempo livre, decidi reler o Tempo e o Vento, do escritor Erico Verissimo, considerada por muitos a obra definitiva do estado do Rio Grande do Sul.

Dividida em O Continente (1949), O Retrato (1951) e O Arquipélago (1962), o romance representa a história do estado gaúcho, de 1680 até 1945 (fim do Estado Novo), através da saga das famílias Terra e Cambará.

Disponível para download no site Lê Livros. 

 

4. Mais trilha sonora.

Essa seleção musical foi feita pelo Leonardo Foletto e a encontrei por acaso no site O Brasil com S. 

Tomei a liberdade de reproduzir abaixo o texto sobre as canções.

Tá super bacana porque traz um pouco dessa atmosfera que o pampa carrega, tendo por base principalmente a milonga, mas também o pop, o candombe, o rock, o nativismo, a MPB (ou MPG, música popular gaúcha) e até um quase blues.

Dá para escutar todas as músicas abaixo.

1. Elis Regina – “Os Homens de Preto” (1975)
Clássico dos clássicos da música gaúcha, composta por Paulo Ruschel e regravada aos borbotões, “Homens” ganhou uma linda versão na voz de Elis Regina, em arranjo do maestro Rogério Duprat, para a coletânea “Música Popular do Sul vol.1”.

2. Almôndegas – “Amargo” (1975)
Cria dos anos 1970, o Almôndegas deu um cara própria a música pop feita no Rio Grande do Sul com sua mistura de rock e MPB com música regional. Deixaram 5 discos, muitos clássicos e um culto que só cresce nas novas gerações conectadas. “Amargo” (Ou “Cevando o amargo”), composição de Lupicínio Rodrigues, fecha o primeiro disco da banda, de 1975, com um retrato de uma cena típica dos pampas.

3. Os Cantores dos Sete Povos – “Esquilador” (1979)
Composição de Telmo de Lima Freitas vencedora da Calhandra de Ouro, prêmio entregue na Califórnia da Canção de Uruguiana, até hoje um dos principais festivais de música nativista do RS. Faz um relato quase jornalístico, recheado de detalhes, do processo de tosquia da ovelha e de seu personagem principal, o esquilador, numa das músicas mais regravadas de sempre no RS.

4. Almôndegas – “Androginismo” (1978)
Canção síntese da inventividade da banda, “Androginismo” conta um causo sobre um “tipo perigoso, que vive sorridente e fazendo quá-quá-quá” num “cabaré da zona”, típico de uma cidade do interior do estado mas que poderia ser de qualquer lugar do mundo. Rock cantado e composto por Kledir Ramil, gravado no último disco da banda, “Circo de Marionetes” – logo depois os Almôndegas acabariam e Kledir sairia com seu irmão Kleiton, também do grupo, em carreira solo.

5. Leopoldo Rassier & Os Serranos- “Veterano” (1982)
Rassier era advogado, estancieiro e um dos grandes intérpretes da música gaúcha de sempre. Em “Veterano”, dá vida a letra do poeta Antônio Augusto Ferreira sobre o “bagual que não se entrega” apesar da idade e relembra de suas lidas no pampa. Os Serranos, no auge de sua forma técnica em 1982, acompanham o intérprete no programa de TV Galpão Crioulo, nesta que é a versão definitiva de um clássico.

6. Musical Saracura – “Xote da Amizade” (1982)
Um dos grupos mais populares da música gaúcha da virada dos 1970 para os 80, o Saracura cantava a cidade (no caso, Porto Alegre) com o espírito e a simplicidade do interior. Esse xote com guitarra, presente no primeiro e único disco gravado pelo Saracura, é uma boa mostra do som da banda, música e letra de Mário Barbará, profícuo compositor da cena nativista, vocais e acordeão de Nico Nicolaiewsky – que faria fama e história depois com “Tangos & Tragédias”, e que veio a falecer neste 2014.

7. Vitor Ramil – “Ibicuí da Armada” (1984)
Em seu segundo disco, com apenas 22 anos, Vitor Ramil já mostrava a que vinha com esse causo cheio de referências poéticas – dentre as quais, Maiakóvski, o “poeta russo” citado – que ajudam a construir um épico histórico com ares de lenda farrapa contada às margens do Ibicuí: “São três homens/Três facões/Com três lenços rubros/São três sombras/Três chapéus/Que entram pela mata/Três luas brilhando no aço/São três degoladores/Por sorte não me viram!/Ibicuí da Armada/A mulher cavalga sobre teu leito”).

8. Tambo do Bando – “Deixem seus olhos Fixos” (1990)
O Tambo foi o principal grupo renovador do nativismo gaúcho na virada dos anos 1980 pros 1990, com letras que refletiam a dura realidade do homem do campo (e da cidade) e interpretações mais criativas e contestadoras às tradicionais canções de exaltação da bravura e da simplicidade do gaúcho típicas do gênero. É dessa lavra que vem a sua música mais conhecida, “Deixem seus olhos fixos”, composta em 1987 e gravada em “Ingênuos Malditos”, álbum de estreia do grupo, em 1990.

9. Graforréia Xilarmônica – “Amigo Punk” (1995)
Quando o imaginário do pampa – e de seu habitante, “o gaúcho” – encontra o ambiente urbano da capital Porto Alegre do final dos anos 1980 e sua cultura pop-chinelagem-irônica, surge essa milonga-rock, ícone-mor do que se convencionou chamar de “rock gaúcho”.

10. Bebeto Alves – “Milongueando uns troço” (1995)
De longa trajetória na música gaúcha, Bebeto Alves é conhecido por revisitar a milonga agregando ritmos diversos, valsa, tango, chamamé, rock e até ecos do funk e do eletrônico. “Milongueando uns troço” é do disco de mesmo nome, de 1995, só violões e voz, interpretada com a crueza de um blues perdido nalgum bar decadente de Uruguaiana, sua fronteiriça terra natal.

11. Vitor Ramil – “Deixando o Pago” (2010)
Desenha bem a paisagem geográfica e afetiva do pampa do ponto de vista de quem está partindo. Poesia de João da Cunha Vargas, poeta pampeano por excelência, musicado milongueiramente por Vitor Ramil, no que virou um clássico do seu vasto repertório – e que costuma fazer brotar lágrimas de saudade de gaúchos distantes do pago. Gravada primeiramente no disco Ramilonga (1997), essa versão é a de “Delibáb” (2010), com o acréscimo do violão argentino de Carlos Moscardini.

12. Vinícius Brum – “O pago” (2010)
Uma das melhores músicas do disco de Vinícius Brum de 2010 inspirado em “Assim na Terra”, livraço de Luis Sérgio “Jacaré” Metz relançado pela Cosac & Naify em 2013. Jacaré era letrista da maioria das canções do Tambo do Bando, banda da qual Vinícius faz parte, e um dos grandes escritores gaúcho das últimas décadas, falecido precocemente em 1996.

13. Richard Serraria – “Pampa Esquema Novo” (2010)
Serraria traz em seu trabalho um resgate da cultura negra presente no pampa, sobretudo no RS e no Uruguai. Nessa mistura de candombe com maracatu, parceria com Marcelo da Redenção e que dá nome ao disco do músico lançado em 2010, faz uma ode à alma mestiça gaúcha.

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