As pegadas portenhas de Julio Cortázar

Foto de Bernardo conejo

Instruções para curtir um domingo de outono: perambular por Buenos Aires guiado pelas mãos e voz de Julio Cortázar. Neste post, detalhes do passeio oferecido pela Coolturarte. Cuidado, você pode terminar em Paris!

 

Foto Alejandro Andan julio-cortazar-buenos-aires

Cortázar morou na Argentina até 1952, quando foi para Paris

“Como si todo fuera alcanzado desde un progresivo retorno, miro ahora mi ciudad con la mirada del que viaja en la plataforma de un tranvía, retrocediendo mientras avanza, y de tanto perfume nocturno, de incontables encuentros con gatos y bibliotecas y Cinzano y Razón Sexta y cine continuado, me vuelven sobre todo los tiempos de estudiante, los bares automáticos de Constitución, la calle Corrientes de las primeras escapadas temerosas de los años treinta, Corrientes inconcebible hoy con sus orquestas de señoritas, sus cines largos y estrechos y una pantalla neblinosa donde personajes de barba y levita corrían por salones lujosos a pobres chicas con sombreritos y tirabuzones y a eso le llamaban películas realistas y entrada cero setenta. Son las rabonas en Plaza Italia con un sol caliente de libertad y pocas monedas, la penumbra alucinatoria del Pasaje Güemes, el aprendizaje del billar y la hombría en los cafés del Once, las vueltas por San Telmo entre la noche y el alba, los descensos tarifados al bajo, un tiempo de cigarrillos rubios y tranvía 86, Villa Urquiza y la Plaza Irlanda donde un breve otoño fui feliz con alguien que murió temprano.”

Julio Cortázar

 

Começamos na esquina da avenida Córdoba com Maipú, num dia friozinho, perfeito para divagar por textos, pontes, galerias, lembranças, passagens. A mentora do tour, Mariana Iglesias, jornalista e guia de turismo, nos avisa: serão quatro horas pelo universo cortaziano, um passeio que nos levará do Centro a Palermo, e de lá a Villa del Parque, para finalizar no café Cortázar, em Almagro. Na véspera já tinha dado uma folheada em Cartas a los Jonquieres e Dos ciudades en Julio Cortázar.  Viajava desde antes.

Partimos. Na primeira parte do tour não há paradas. Em uma van, passamos inicialmente em frente ao Teatro Colón, lugar que teria inspirado Cortázar a escrever o conto Las Ménades, incluído no livro Final de juego (1956). O relato acontece dentro do Teatro Corona, alter ego do teatro portenho.

Alcanzándome un programa impreso en papel crema, Don Pérez me condujo a mi platea. Fila nueve, ligeramente hacia la derecha: el perfecto equilibrio acústico. Conozco bien el teatro Corona y sé que tiene caprichos de mujer histérica.

argentina cortazar

Te quiero, país tirado a la vereda

Seguimos pela Diagonal Norte onde, nos conta Mariana, Cortázar entregou o manuscrito do conto Casa Tomada a Jorge Luis Borges, que o publicaria imediatamente na revista Anales de Buenos Aires, da qual era editor. Não saia desta história. Mais tarde o texto fez parte do livro Bestiário (1951).

Passamos em frente ao Teatro del Pueblo, que Cortázar costumava frequentar e seguimos até a Plaza de Mayo.

Paramos uns minutos para observar a confeitaria London, na esquina de Avenida de Mayo e Florida. Até hoje este café mantém a mesa de Cortázar, onde ele teria escrito Los premios (1960), a história de um grupo de pessoas que ganha um prêmio e se encontra neste lugar para recebê-lo. Mais não conto!

Se você estiver pelo centro, tome um cafezinho por lá.

La marquesa salió a las cinco –pensó Carlos López–. ¿Dónde diablos he leído eso?’ Era en el London de Perú y Avenida; eran las cinco y diez. ¿La marquesa salió a las cinco? López movió la cabeza para desechar el recuerdo incompleto, y probó su Quilmes Cristal. No estaba bastante fría.

A Plaza de Mayo, bem em frente, é também cenário de vários contos, como El examenDivertimiento e Después del almuerzo. 

Um lugar que merecia uma parada e que é apenas citado: a Galería Güemes, em Florida 165, presente no conto El otro cielo. Na história, o personagem principal, um trabalhador da Bolsa de Buenos Aires, entra na galeria pelo lado portenho e sai na Galería Vivienne de París. As galerias, assim como o metrô, as passagens e as pontes são o que Cortázar chamava, nos lembra Mariana, de “lugares sem tempo“.

 

Edgardo-Cantón-Julio-Cortázar-y-Juan-Cedrón-en-París

Edgardo Cantón, Julio Cortázar e Juan Cedrón no metrô de Paris

Seguimos viagem pela Avenida de Maio e passamos em frente à linha A do metrô, o subte portenho – mencionado em Texto en una libreta, do livro Queremos tanto a Glenda (1980). Na esquina de Rivadavia e Rincón, a guia nos indica a livraria Aquilanti (anotado para voltar!), de Lucio Aquilanti, o maior colecionista de primeira edições de material produzido por Cortázar, com mais de 850 peças (a coleção foi vendida recentemente para a Biblioteca Nacional, mas parece que a livraria ainda guarda algumas obras).

Leia aqui alguns dos contos de Cortázar 

A primeira parada do tour é no bairro do Once, no colégio Mariano Acosta (Moreno e Urquiza), onde Cortázar fez o segundo grau. Ali, Mariana nos mostra algumas relíquias, como o boletim com as notas do escritor. Ele estudou neste lugar – que chamava de “caixa amarela” e aparece no conto La escuela de noche – entre 1928 e 1935.

cortazar escuela

Caixa amarela

Seguimos. No caminho para Palermo, passamos em frente à Federação de Box, em Almagro, e escutamos El Torito. Aliás, uma das sacadas deste tour é incluir áudios do escritor durante o trajeto. 

 

cortazar buenos aires

Cronópios em passeio

Na Plaza Cortázar, paramos para descobrir o lugar onde o escritor costumava hospedar-se quando morava nas cidades de Bolívar e Chivilcoy e, eventualmente, vinha a Buenos Aires – uma pensão em Honduras 4984. Quantas vezes passei em frente a esta portinha, ignorando-a!

O bairro também foi inspiração para SimulacrosFamilia de la calle Humboldt, publicado em Historias de cronopios y de famas (1962).

Somos una familia rara. En este país donde las cosas se hacen por obligación o fanfarronería, nos gustan las ocupaciones libres, las tareas porque sí, los simulacros que no sirven para nada.
Tenemos un defecto: nos falta originalidad. Casi todo lo que decidimos hacer está inspirado -digamos francamente, copiado- de modelos célebres. Si alguna novedad aportamos es siempre inevitable: los anacronismos o las sorpresas, los escándalos. Mi tío el mayor dice que somos como las copias en papel carbónico, idénticas al original salvo que otro color, otro papel, otra finalidad. Mi hermana la tercera se compara con el ruiseñor mecánico de Andersen; su romanticismo llega a la náusea.  Somos muchos y vivimos en la calle Humboldt.

A caminho de Villa del Parque, passamos em frente ao cemitério de Chacarita, e escutamos o conto Ómnibus, que narra as viagens em ônibus de uma moça, entre Villa del Parque e o centro.

Leia aqui textos sobre Cortázar publicados no Aquí me Quedo

Finalmente chegamos à parte que eu mais esperava, o Barrio Rawson, delimitado por um triângulo formado pelas ruas Tinogasta e Zamudio e a Avenida San Martin. Há 104 casas geminadas nas suas ruas cheias de curvas e nove edifícios de três andares, como o que Cortázar viveu com a mãe María e a irmã Memé durante alguns anos, antes de mudar-se para Chivilcoy e, em seguida, para Bolívar. Numa esquina fica o charmoso café Rayuela, que leva o nome da novela publicada em 1963. O passeio termina no Café Cortázar, do qual já falamos aqui no blog.

julio cortazar casa

rayuela bar

Foto: Coolturarte

Leia aqui entrevista do escritor para Paris Review

Recomendo que vocês espiem as fotos de Bernardo Cornejo Maltz (é dele a imagem que abre o post), um fotógrafo de 24 anos que teve a oportunidade que muitos de nós sonhamos: em 2014 ele viveu por um tempo nesta casa, no mesmo quarto de Cortázar. O que ele viu? “Siempre empezó a llover” nos dá pistas e nos leva a caminhar também pelo bairro. 

Foto: Bernardo Cornejo Maltz cortazar casa

Foto: Bernardo Cornejo Maltz cortazar casa

Se você quiser fazer esse passeio:

– Contato e reservas: info.coolturarte@gmail.com Em Facebook: Coolturarte.

– Custo: $ 250 (incluye café).

– Outras informações: info.mariana@gmail.com. Tel. (5411) 6496-6303.

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