Tangovia: todas as gravações de tango digitalizadas

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Para não perder as coleções. Foto de Daniel García

 

Não é preciso sequer gostar de tango para entender a magnitude do projeto Arquivo Digital do Tango, apresentado ontem, em Buenos Aires.

A idéia é digitalizar todas as gravações de tango existentes, bem como materiais complementares como fotos, partituras e arranjos.

Esses registros, ainda que pareça impossível, estão contados. São cerca de 100.000 gravações entre 1902 e 1995, a maioria em discos de vinil e fitas cassetes. Muitas delas estão bem catalogadas, nas mãos de colecionadores espalhados pelo mundo. O problema é que não mais de 20% desse material está hoje disponível em CD.

O projeto vai custar 1 milhão de dólares.

“Vamos digitalizar artista por artista (cerca de 1.700), disco por disco, inclusive gravações não comerciais”, disse ontem Ignacio Varchausky, diretor artístico da Tangovia, uma associação sem fins lucrativos que encabeça o projeto.

Para se ter uma idéia: apenas o cantor Ignacio Corsini realizou mais de 650 gravações comerciais. Em contrapartida, a orquestra típica do violinista Raúl Kaplún tem apenas oito registros comerciais.

O objetivo é colocar toda essa informação à disposição de escolas, conservatórios, universidades, historiadores, jornalistas.

“Os projetos que podem surgir daqui são infinitos”, destacou Varchausky, que tem 32 anos e é, também, o criador da orquestra escola de Tango Emilio Balcarce e o contrabaixista e fundador de El Arranque, um dos grupos de tango novo mais importantes da Argentina.

Além produtor de uma das séries de tango mais belas dos últimos tempos, “El arte del bandoneón”, na qual Leopoldo Federico, Julio Pane, Walter Ríos e Néstor Marconi gravaram sozinhos com seus instrumentos.

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Foto de Daniel García

 

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Durante a apresentação, por várias vezes ele destacou a necessidade de que este trabalho seja realizado o mais rápido possível.

“Pelo menos 3 mil gravações que figuram em catálogos e milhares de horas de programas de rádio e televisão já não existem em nenhum formato e se perderam para sempre”.

Por outro lado, ainda há muitas coleções. O problema é que a idade avançada dos colecionadores, as precárias condições de conservação em alguns casos e o alto valor cotizado por este material no mercado negro dão a essa iniciativa um caráter urgente.

Apenas no último ano morreram quatro colecionadores. No caso de colecionadores que vivem em condição mais humilde, quando eles morrem, muitas vezes morrem também as coleções, que podem terminar no Parque Rivadávia ou diretamente no lixo.

Outra questão que a gente não imagina: há discos que não possuem mais de cinco anos e já estão desaparecidos. Ou porque foram feitas tiragens muito pequeñas, ou porque foram editados por selos que não existem mais, ou porque ninguém teve interesse de reeditá-los.

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Em busca das partituras perdidas

Resultados

Ontem foram apresentados os resultados dos três primeiros anos de trabalho, a etapa piloto do projeto.

Houve um esforço enorme para encontrar as coleções e para definir a maneira correta de preservação do acervo, que contou com a ajuda da British Library e da Biblioteca do Congresso americano.

Até agora foram digitalizados uns seis mil tangos em altíssima fidelidade, entre eles as discografias completas dos maestros Aníbal Troilo, Astor Piazzolla, Horacio Salgán e Alfredo Gobbi.

Por enquanto, o material será aberto para consulta apenas na Casa do Tango. As possibilidades de consulta são enormes –  por nome do artista, da música, gravação, ano de gravação, formato original, acompanhantes, arranjo e por aí vai.

Para Varchausky,muito mais do que música, se trata de um legado cultural, que é o mesmo que dizer identidade. “A Argentina tem muitas questões não resolvidas com o tema da memória e este é um exemplo. Ninguém nunca se preocupou de maneira sistemática com as gravações de tango. Vamos mudar essa história”.

* As duas primeiras fotos desta matéria são de Daniel García

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