Milongas portenhas: a crise econômica chega ao tango

 

Quejas de bandoneón, Mi Noche Triste, A La Deriva, Tristeza de Arrabal. 

Não faltam nomes de tango para dar título à crise pela qual passam as milongas portenhas. Os salões estão às moscas e isso não é nenhum exagero. A razão? Ninguém tem dinheiro – nem os organizadores das milongas para pagar as contas, nem os habitués para frequentá-las.

O quadro vinha complicado desde o ano passado, quando o governo aumentou as tarifas de serviços básicos, como água, luz e gás, mas as dificuldades econômicas de 2017 provocaram uma situação que há muito tempo não se via no tango, adicionando dois ingredientes: o bolso vazio dos milongueiros locais e a queda no turismo internacional.

Para completar, dois agravantes:

  • O fechamento de espaços por parte da Agência Geral de Controle da Cidade de Buenos Aires
  • A lentidão na regulamentação da Lei de Fomento às Milongas, que prevê a distribuição de 9 milhões de pesos em subsídios e daria um alento na baixa temporada.

A repercussão na mídia

O assunto, que era de “corredor”, chegou à imprensa nos últimos dias.  “Adminstrar la miseria no es fácil, disse Julio Bassan, presidente da Associação de Organizadores de Milongas (AOM), em entrevista ao Página 12.

No Terra, a bailarina Mora Godoy reclama que o tango tem um grande reconhecimento no exterior, mas que o mesmo não acontece no país, onde “as milongas sofrem sua pior crise“.

No hay una política cultural de protección al tango. La Ciudad está muy envalentonada con el Campeonato. Se apuesta a ese evento, pero se desatiende a las milongas y a las orquestas”, diz Omar Viola, fundador nos anos 80 da Parakultural e organizador das milongas do Salón Canning  e Club Fulgor de Villa Crespo. La milonga no es masiva. No está hecha para amasar fortuna. Se hace por prepotencia de cultura: la gente va por necesidad, por el deseo de bailar”.

Buenos Aires tem hoje cerca de 150 milongas regulares em funcionamento, sendo 72 filiadas à AOM.

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Milongas portenhas:  menos consumo e mudança de hábitos

O primeiro problema das milongas portenhas é, por supuesto, a crise econômica. Muitos habitués começaram a limitar suas saídas e, quando saem, consomem menos.

El que salía tres a cinco veces por semana, lo hace una sola vez. Y si antes se pedía un vino y empanadas en el local de baile, hoy se trae la botellita de agua mineral desde su casa“, diz Jorge Orellana, milonguero e fundador de Tangotecnia. “Ahora capaz entre siete se compran un vino“, disse Natalia Fures, de La Bicicleta, para o Página 12.

As únicas milongas com pista cheia são as que não cobram entrada ou cobram “a la gorra“, ou seja, você paga o que puder. Mas esta não é uma solução, por exemplo, para as casas que possuem orquestras ao vivo, que possuem um custo alto.  O consumo mais frugal também reduziu reduziu o lucro dos bares que, não raro, ajudava a pagar o aluguel dos espaços. Para completar, a míngua de turistas se reflete no número de entradas vendidas – dizem que a queda é de mais de 50%.

Para reverter a crise, a Maldita Milonga adotou, por exemplo, o “passe milongueiro”, uma entrada com 50% de desconto, válida para frequentadores habituais.

 

Em julho do ano passado os organizadores de milongas deram o alerta e avisaram que muitos espaços estavam com os dias contados. A AOM fez um milongão na rua e distribuiu uma carta, pedindo ajuda com o “tarifaço”, o aumento nas tarifas de luz, água e gás, em alguns casos em mais de 500%. 

Las autoridades porteñas, provinciales y nacionales insisten en desconocer el inmenso valor cultural y económico que significa el tango, como actualidad y como potencial. En la ‘Capital Mundial del Tango’, las milongas corren peligro”, dizia o texto assinado por Bassan.  E se queixavam que embora a cidade organize o Mundial de Tango e que o gênero tenha sido declarado Patrimônio Imaterial pela Unesco, os que o mantêm vivo não recebem nenhum tipo de ajuda para suas atividades.

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Lei de Fomento e fechamento de milongas

A Lei de Fomento às Milongas foi aprovada pela Legislatura Portenha em 7 de dezembro e 2016, mas ainda não foi regulamentada. Segundo Bassan, os organizadores de milonga trabalham com os técnicos do governo ajustando o texto.

A discussão passa por dois eixos centrais: a primeira é constituição de um “Conselho Assessor”, que irá estabelecer como se repartirão os subsídios – um tema polêmico! Isso porque há muitas muitas milongas ditas “independentes” ou “infomais”, como a Milonga del Panuelo Blanco, na Plaza Dorrego, por exemplo, que não estão num espaço fechado mas reclamam receber subsídios por seus custos, como transporte, fretes de instrumentos, pagamento de balarinos. Outro assunto é a criação de um registro único de milongas na cidade de Buenos Aires.

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Desde 2015, as milongas portenhas também sofrem com as “habilitações”exigidas pelo governo da cidade (leiam matéria da agência Télam sobre o tema).  O tema pegou fogo quando fecharam a milonga ‘Sin Rumbo’, de Villa Urquiza, a mais antiga da cidade, e logo em seguida a Sunderland, fundada en 1919 no mesmo bairro – ambas consideradas “intocáveis”.

Os organizadores dizem que, em geral, as autoridades exigem instalações fixas de custo muito alto, como sistemas anti incendio complexos, como se elas se fossem “discos” com milhares de pessoas, quando na verdade funcionam em clubes de bairrro que não podem pagar estes custos. As milongas portenhas precisam ter também a habilitação de Clube (Decreto 5959, art. 4) e permissão para dançar (Resolução 878/06), o que exige o cumprimento de uma série de trâmites nem sempre são possíveis, especialmente as mais alternativas.

Enquanto isso, para o Festival e Mundial de Tango, que acontece sempre em agosto e é direcionado ao mercado internacional, nunca falta dinheiro. O tango é a soja portenha, diz o presidente Maurício Macri. Para exportação.

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